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XOLOITZCUINTLE

A Lenda do XOLOITZCUINTLE, o cachorro pelado do México.


O XOLOITZCUUINTLE é uma raça de cachorro originaria no México.

Ao contrário do que se pensa, não teve nenhuma manipulação humana na “fabricação” desta linda e exótica raça de cão.
Estudos arqueológicos nos levam a acreditar que o cão chegou ao continente americano há 10.000 anos atrás, vindo de ancestrais norte europeus que atravessaram o estreito de Bhering.

Chegando nas Américas eles foram se espalhando pelo continente, dando origens a outras variações autóctones (já selecionadas pelo nosso meio ambiente). Uma das que se tem conhecimento era de um cão de porte médio/pequeno, cujo crânio apresentava arcada com falta de peças várias dentarias, o que o torna um ótimo candidato a ser um “perro pelón” (cachorro sem pelos).

Outra prova de que os cães sem pelos estiveram presentes na cultura meso americana se dá pela análise de peças artesanais encontradas em tumbas e sítios arqueológicos. Esculturas de cerâmica e várias pinturas foram encontradas principalmente no México, mas também no Peru, Equador e detalham um animal com pele delgada, sem camada de pelos, com presença de rugas e com a presença de grandes espaços onde deveriam estar os pré molares, e mesmo com falta dos caninos. Esses cães de cerâmica foram encontrados em tumbas, o que levou os arqueologistas a crerem que eram enterrados como oferendas aos deuses por seus mortos. Alguns desses achados datam de mais de 2000 anos atrás.

Para os Maias e os Nahua os defuntos eram acompanhados ao inframundo pela alma de seus cães, que carregavam a alma de seus donos até Mictlán, a ultima morada da alma.

Mas de onde veio o nome Xoloitzcuintle?

A palavra tem origem no dialeto NAHUATL, sendo que XOLOTL significa estranho, deformado; e ITZCUINTLE significa animal de quatro patas, cachorro.

A lenda conta que XOLOTL (que era um Deus) era irmão gêmeo de QUETZALCÓATL. Os gêmeos foram responsáveis por criar a humanidade. Mas são duas divindades que representam opostos.

Xolotl, a estrela vespertina, é o deus da obscuridade, do infra Mundo e da morte.

Quetzoalcoatl, deus da estrela da manhã, da luz, do céu e da vida.

Os homens mesoamericanos sabiam que se tratava de um só astro, mas com manifestações, diferentes, pois os Maias são reconhecidos por suas observações astronômicas precisas e do ciclo do planeta. Ambas as divindades estão relacionadas ao sol, porém uma anuncia sua chegada e outra a sua saída do céu visível. Xolotl se encarrega de acompanhar o sol da tarde e acompanhá-lo durante a noite em sua jornada pelo reino dos mortos até o amanhecer do dia seguinte. Da mesma maneira, o cão da raça Xoloitzcuintle foi reconhecido, como guia dos mortos em sua jornada pela escuridão até MICTLÁN, o reino dos mortos (algo parecido como o que chamamos de Paraíso das almas). Como Vênus aparece no céu matutino antes da chegada do Sol, diziam que ele era o irmão do Sol, e que aparecia primeiro, como um cão, pois estava guiando seus passos.

Como foram mostrados como gêmeos, Xolotl era reconhecido como a divindade da dualidade, da escuridão e da transfiguração, sendo representado muitas vezes como um homem com cabeça de cachorro.

Os gêmeos tentaram criar a vida, mas fracassaram. Para ter sucesso em sua empreitada eles teriam que descer ao inframundo, Mictlán, e pegar os ossos que dariam origem a humanidade. Dizem que Xolotl se ofereceu para descer ao inframundo, mas que isso teria graves consequências, e que ele seria transformado em um cachorro, o XOLOITZCUINTLE.

Uma outra versão dessa lenda diz que XOLOTL criou o cachorro de uma lasca que MICTLANTECUHITLI lhe deu, dos ossos da vida. E que, ao ver sua criação, deu o cachorro de presente aos homens. Se em vida os homens cuidarem bem de seus cães, quando chegar o dia de sua morte, esses incríveis cães guiarão a alma de seus donos através do inframundo até Mictlán. Por causa dessa lenda, os Xolos eram sacrificados quando da morte de seus donos, e enterrados em suas tumbas, como oferendas a sua alma.

Dizia a tradição que se um Xolo não tivesse seu corpo totalmente negro, se apresentasse manchas em seu corpo, era porque ele já teria servido a outras almas.

 

O Xoloitzcuintle e a Cultura

Creio que todos percebemos a importância que estes cães tiveram na cultura dos nativos mesoamericanos., NÃO É?! Então pensem, quando da chegada dos espanhóis no continente americano, estes também perceberam que para impor seus costumes e sua religião, deveriam acabar com os símbolos culturais e religiosos dos povos locais.

Esporadicamente, os astecas serviam a carne desses cães sem pelos em cerimônias, oferecida como um manjar.

Para infelicidade dos cães, essa carne caiu no gosto popular dos espanhóis que passaram a comê-los indiscriminadamente, conduzindo-os gradualmente a quase extinção. Os Espanhóis chegaram e impuseram um novo modo de vida aos Mexicas (primeiros habitantes da américa central), que mudou sua organização social, pois era baseada na exploração dos recursos naturais e humanos desses povos.

Tanto que nos idos de 1950, a raça estava quase totalmente extinta.

Nessa mesma época, nas décadas de 40 e 50, começava a crescer um sentimento nacionalista.

Paralelamente a isso, havia muitos exploradores pesquisando os sítio arqueológicos da região, e descobrindo peças artesanais milenares, deparando-se com muitas figuras que, como já dissemos, eram expressões de cães primitivos. Um destes exploradores era um coronel britânico que se radicou no México, mas vivia explorando esses sítios, tendo feito uma boa amizade com os moradores locais. O livro “Xoloitzcuintle, del enigma al siglo XXI” conta que o Coronel Wrigth numa de suas expedições no interior do continente, foi surpreendido por um casal de cães sem pelos que o rodearam, defendendo a sua propriedade. Ele, como um colecionador, encantou-se em saber que aqueles cães não estavam extintos, e acabou por levar alguns pra sua casa.

O Coronel Wright era amigo do casal Diego Rivera e Frida Khalo. O casal era um dos incentivadores do nacionalismo mexicano. Sendo assim, também levaram um Xolo pra casa. E Diego passou a incluir, sempre que podia, um Xolo em suas pinturas, e Frida foi fotografada inúmeras vezes com seus cães.

Paralelamente a isso, a Federação Canófila Mexicana começou um trabalho de resgate dos últimos exemplares, junto ao Coronel Wright (somando um britânico a saga de reviver a raça), e devagar foram encontrando cães “perdidos” no interior do país. Esse esforço conjunto logrou um legado cultural e cinófilo, colocando o Xoloitzcuintle na memória nacional.

Uma das primeiras atitudes que tomou a Federação Canófila mexicana, foi escrever o Standard da raça e fixar o nome XOLOITZCUINTLE, seu nome original, diminuindo o uso do termo Pelado Mexicano, para honrar sua origem pré hispânica.
Quando começaram a acasalar os Xolos, dessa vez seletivamente, para fixar a raça, estes pioneiros perceberam 3 particularidades: perceberam que nasciam filhotes com pelos em ninhadas de casais sem pelos; perceberam que os cães apresentavam enormes falhas dentárias, faltando inclusive alguns caninos e que a temperatura da pele era muito maior que dos cachorros com pelos.

Curiosamente, essa é uma das raças mais estudadas, geneticamente, no mundo dos cães. Para elucidar essas curiosidades “acadêmicas”, vários pesquisadores tomaram para si a tarefa de estudá-los. E hoje, muito se sabe a respeito da genética dos “perros pelones”

Uma das curiosidades descobertas é partilhada por outras raças sem pelos, como o Pelado Peruano e o Cão de Crista Chinês, sugerindo que eles podem ter tido um ancestral em comum. Descobriu-se a existência de um GENE LETAL.

Ah, essa palavra pode parecer preocupante, mas foi uma criação da própria natureza. Deixa-me explicar: Vamos padronizar o gene de falta de pelos por “P” e o gene de presença de pelos por “p”.

Se temos um cachorro “pp” ele é homozigoto duplo recessivo e nascerá com pêlos.

Se temos um cachorro “Pp” ele é heterozigoto, mas quem manda é o gene forte, então se ele tem um “P” ele será pelado.

Mas se temos um cachorro “PP”, alguma coisa acontece já no útero da mãe, e esse ovulo sequer vira um embrião, sendo reabsorvido pelo organismo da mãe.

A única consequência disso é que, se acasalarmos sempre cães sem pelos, as ninhadas podem ser menores. Coisa que se resolve usando um exemplar com pelos de vez em quando.

Mas. Se a natureza os criou assim, se permitiu que eles atravessassem os séculos mesmo nas maiores adversidades, é porque isso não influencia tanto assim na raça, não é?!

A propósito, o mecanismo genético que lhes confere essa falta de pelos é chamada de DISPLASIA ECTODÉRMICA, e, como embriologicamente os dentes têm a mesma origem dos pelos, explica-se o fato de que, em cães sem pelos espera-se também que tenham faltas dentárias.

Essa raça, além de encantadora, é multifuncional. O que eu posso dizer é que, são super companheiros, muito desconfiados com estranhos, e por isso precisam ser muito socializados na primeira infância, para que não cresçam arredios. Mas são cães de um grande coração. Vão cuidar de você e da sua família com a própria vida, se necessário. Eram considerados curandeiros, porque eram colocados pra dormir na cama, pois podiam ser utilizados para aquecer os enfermos. Tem um excelente faro, o que os qualifica para trabalhar como cães policiais de apreensão de drogas ou trabalhando na detecção de doenças de seus humanos.

 

E pra terminar, você deve ter percebido uma sonoridade familiar na palavra XOLOTL, não foi?!

Em uma das versões da lenda de Xolotl, ele, junto aos outros deuses, deveria sacrificar-se para que o Sol e a Lua, recém surgidos no céu, pudessem iniciar seu movimento. Xolotl foi o que teve mais medo de sacrificar-se, e fugiu. Escondeu-se primeiro num milharal, transformando-se numa espiga, mas ele foi descoberto. Fugiu de novo e escondeu-se numa plantação de agaves (uma espécie de suculenta gigante, de onde se tira o xarope que pode dar origem a Tequila) e se transformou num Ágave duplo, mas não deu certo e ele fugiu de novo, dessa vez jogando-se na água, onde transformou-se num “peixe deformado”, dando origem ao AXOLOTL (ATL+ água/ XOLOTL= monstro)

 

FONTES:

 

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Maria Alice e Isabela Bicudo
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